LUANDA MEU SEMBA

Ano 1994

CRÍTICA

Texto de Dario de Melo
1994

Para além dos méritos que este CD apresenta e que pessoas mais entendidas por certo nele acharão, não podemos deixar de apontar gesto de coragem que esta gravação representa.

Numa sociedade como é a nossa – a urbana, naturalmente - ainda afeita a maneiras antigas de pensar, é pouco compreensível que um advogado dependure a sua toca de jurista, no cabide onde descansava a viola.

Isto, muito embora haja exemplo de intelectuais no verdadeiro sentido da palavra que do mesmo modo praticam nesta arte e a quem se perdoa por a ela terem chegado numa época em que a gravata era quase uma heresia.

E é neste sentido, nesta confusão de gravatas como referência obrigatória da importância social que se tem ou se pretende mostrar;

E é neste sentido, nesta confusão de pensamento que só sejam intelectuais no verdadeiro sentido da palavra, os que escrevem um livro, pintam um quadro, que nunca quem faça musica, que se podem esboçar múltiplas interrogações.

Que Né Gonçalves escrevesse versos e os publicasse em livro, era facto que todos achariam natural e próprio num homem de letras e leis;

Que Né Gonçalves, uma que outra vez musicasse uma letra, era um pecadilho sem importância que se admitiria ao entretém de um jurista;

Agora que se expusesse a cantar e a gravar como qualquer artista constitui uma autentica agressão ao entendimento de que, sendo d`algo de fresca data, se tenta esquecer que foi filho de ninguém de há muito tempo.

Isto de trocar a toga pela viola para ser igual a quantos por esta terra fazem musica que muitos aplaudem, mas poucos consideram, porque o que vem de fora é que é bom;

Isto de tentar ombrear (o intelectual que ele é) com tantos outros que da escola só trazem as pautas escritas que a vida lhes deu;

Isto de não ser igual aos seus pares, de afrontar as regras que o novo – riquismo vai impondo nesta terra, é que uns poucos não atendem, nem jamais entenderão.

E ainda bem!

Por isso vos quisemos chamar a atenção para o acto de coragem que este CD também constitui.

Porque se um embaixador as vezes canta, é perdoável – São Folguedos de juventude que lhe ficaram.

Porque, se André Mingas continua a sua carreira, até porque como Arquitecto há pouco tempo ainda não foi obrigado a parar.

Porque se um Manuel Rui, também ele Jurista, faz de tudo um pouco, é por contestação e irreverência – loucura de um feitio que todos lhe conhecem e de uma pitada de génio que tem de se lhe reconhecer…

Agora que Né Gonçalves, e sendo Advogado e Docente Universitário, queira experimentar agora a viola, a voz e a letra das suas canções, talvez já contenha algum pecado.

Foi preciso coragem, dizíamos antes.

Bendita seja ela, diremos todos nos agora.

De uma outra virtude gostaríamos de tratar agora – A do descomprometimento com que este CD foi elaborado.

Numa hora em que a musica de Angola faz eco para lá das nossas fronteiras, mas numa época também, em que muitos e bons dos nossos melhores compositores abastardam o seu talento para cumprir as obrigações e exigências do mercado;

Numa hora em que se assiste ao mais completo abandono dos músicos que nesta terra vivem, mas se aceita com as duas mãos qualquer “bandinha “que venha do além – mar com mal paridos cantares que nada têm a ver com o nosso Pais - porque não basta só ter nascido, é preciso mais qualquer coisa para se fazer musica Angolana;

Numa hora em que a Europa faz música africana e ao sabor dos interesses dos seus editores e ao gosto do seu público, determina qual seja a verdadeira música Africana;

Numa época em que nós somos cada vez menos nós mesmos, para ser tudo aquilo que os outros querem que sejamos, bom é que homens como Né Gonçalves, músicos e compositores como Né Gonçalves, letristas e executantes, apareçam para nos dizer que apesar das dificuldades, do abandono e desinteresse, a África, Angola, não vive só na Europa.

Vive também e principalmente, aqui e connosco.

Sem bastardias sem compromissos.

Sem atender às modas inventadas fora e que nunca foram as nossas.

O CD de Né Gonçalves é exemplo disso, no extremo cuidado dos arranjos, na letra de mensagem simples e directa, na melodia que encanta e na voz diferente que se insinua e agrada.

Aparentemente, Né Gonçalves gravou um disco simples.

Uma música sem complexidades que nos leva a entender e gostar à primeira vez.

Porém, esta simplicidade é ilusória.

Fruto de muito trabalho, de muito empenho, este CD tem a simplicidade própria do que é honesto, do que é vivido e quotidiano, do que é, acima de tudo nosso.

Dario de Melo
(Escritor)

 

LETRAS DO ÁLBUM

Luanda meu semba
Luanda meu semba

Luanda
tu mandas parar
a luz do luar,
fazes prosseguir
a noite a brilhar

Luanda
mexe e remexe
no semba
dos becos do Cazenga
até à marginal.

Luanda
Tu fazes sorrir
os raios de sol
batendo no mar

Na ilha de Luanda,
mufete a sair
Kianda feliz
Luanda a cantar…

Meu semba

Ai que saudade
de Luanda a sorrir
ver outra vez o teu jardim
a florir

Oh nossa Luanda
saudade sem fim
que me fez chorar
e depois sorrir

Luanda,
tu fazes sonhar
com teu sol ardente,
o beijo mais quente,
em lábios de mar

Eu me revejo
com nostalgia,
criança no prenda,
sinto a magia
das noites do Cassenda

Vejo e revejo
teu coração Mutamba
os pés no chão do Sambila
e da Samba
O pôr-do-sol cor de muamba

Luanda
beleza sem par
no teu horizonte
Mussulo a bailar….

Meu semba
A chuva caiu
seu rosto molhou
misturou, confundiu
o quanto chorou,

Um raio de sol
depressa secou
as marcas de pranto
que a chuva levou

E os rios encheram
seus leitos sem pranto
as plantas cresceram
com viço e encanto,

E a terra sonhou
que a vida sorria
que o rosto marcado
não mais voltaria,

Mas quando acordou
trovões explodiam
na terra de sonho
ainda chovia

Chuva de trovões
choram multidões
mas brilham estrelas
vibram corações

A terra acordou
e ainda chovia
mas não parou de sonhar
Todo o dia
Anda menina morena
n’ areia do mar

Ginga n’areia menina
à luz do luar,

Risca poesia n’areia
o teu caminhar

Na noite quente o teu passo
tem ritmo sem par

Vem
cintilante para mim
menina do mar
teu sorriso é meu jardim

Vem
Docemente para mim
menina do mar
meu pedaço de jasmim

Traz tua canção
e canta para mim

Abre o coração
meu canto é para ti

Menina do mar
brilho no olhar

Menina do mar
Luz do meu luar
Luar e areia

Na madrugada o abraço
do teu ondular

Tem o calor, o sabor e a poesia
d’areia do mar
Menino de rua
a rua é tua
Só tens a liberdade de sonhar
Com a lua

Bis

És o dono desse andar errante
com teu sonho de criança
distante

Trazes as feridas dessa terra
no peito
só as estrelas iluminam
teu leito

Sem tecto, sem escola
vazia a sacola
menino sozinho
perdeu seu caminho

Sem tecto, sem escola
vazia a sacola
menino de rua
que vive de esmola

Só tens na mão o papelão
que guarda teus sonhos adiados
de criança

Na outra mão o futuro
se de ti houver lembrança

Menino de rua
a rua é tua
só tens a liberdade de sonhar
com a lua

É hora
de dar a tua mão
e bem juntos fazer
de amor a canção

É hora
de dar a tua mão
e bem juntos trazer
amor agora

agora
vamos dar as mãos
e bem juntos trazer amor
Angola
Solo basto una mirada
para escuchar tu vos

Solo basto una mirada
para sentir tu corazón

Del Caribe, mujer
del Caribe

Solo basto un momento
para olvidar mi tormento
y muy pronto sueltar
mis lágrimas al vento

y la tierra caliente
absorvió la canción
de uma mirada profunda
que alcansa el universo

Y el amor asi nació

Solo basto una mirada
para querer – te
solo basto un momento
y toda la vida te he de amar

Del caribe, mujer
habanera
del caribe

FICHA TÉCNICA