Luanda, Meu Semba – Instrumental

O percurso do cantor e violonista ganha mais um capítulo com o lançamento do seu álbum “Luanda, Meu Semba”.

Luanda, Meu Semba – Instrumental

Um dos destaques da última edição da Feira Internacional do Livro e do Disco foi o lançamento de Luanda, Meu Semba – Instrumental, álbum do cantor, violonista e compositor Né Gonçalves. Apesar de iniciada em tenra infância – dedilha o violão desde a primeira infância, tendo se apresentado pela primeira vez aos nove, com Os Mini-Craques – o seu percurso tem a peculiaridade de avançar em movimentos de 20 em 20 anos.

O primeiro destes movimentos aconteceu em 1974, com a participação na gravação da música A Independência está chegando, tida como hino propulsor para a autonomia de Angola, que decorreria no ano seguinte.

O lançamento de Luanda, meu Semba, que é também o seu primeiro trabalho, decorre vinte anos depois, em 1994. O álbum rendeu-lhe o prémio Revelação, da União Nacional dos Artistas e Compositores. Agora, já no século XXI, o mesmo álbum ganhou a versão instrumental lançada no mês passado, apesar de gravada em 2012.
Né Gonçalves nasceu na capital em 1958, e eternizou a cidade nos versos da canção que dá título ao álbum:

Luanda, tu fazes sorrir os raios de sol batendo no mar / Luanda, tu fazes sonhar com teu sol ardente, o beijo mais quente em lábios de mar / Eu me revejo com nostalgia, criança no Prenda, sinto a magia das noites do Cassenda / Luanda mexe e remexe no semba, dos becos do Cazenga até à marginal.

A letra mereceu, inclusive, aplausos do cantor e compositor Ruy Mingas, figura emblemática da renovação estética da Música Popular de Angola. “Na nova geração de músicos, está aí um Né Gonçalves com um semba moderno”, disse na altura do lançamento da canção, em 1994.

Outra música do disco também seria aclamada. “Menino de Rua” foi premiada como Música do Ano pela Rádio Nacional de Angola. O CD foi ainda incluso numa colectânea de música africana editada na Áustria.

“Menino de rua, a rua é tua. Só tens a liberdade de sonhar com a lua / Só tens na mão o papelão que guarda teus sonhos adiados de criança”, dizem os versos da canção.
O sucesso do álbum, no entanto, não foi capaz de estabelecer uma constância na carreira. “O músico deu lugar ao advogado e hoje acabo por ser um músico que se tornou advogado e que mais tarde acabou por ser emprestado à gestão”, afirma, referindo-se ao facto de ser, hoje, o presidente do Conselho de Administração da Ensa – Seguros de Angola.

A arte não deixa de ser a sua vocação. “A música entrou para o meu sangue em primeiro lugar; faz parte de meu próprio ser. Por isso diria que se tivesse que escolher apenas uma actividade, a escolha seria natural: a música”.

O álbum Luanda, meu Semba – Instrumental reúne 61 músicos de nove países. Com uma direcção perfeccionista, cada pormenor foi pensado de forma a dar brilho ao disco, desde as gravações, em três estúdios em Angola, Madrid e Praga, até às capas com detalhes em dourado. O trabalho contou ainda com a participação da secção de cordas da Orquestra Nacional da República Checa e teve direcção musical do peruano Jorge Cervantes.

“As músicas do primeiro CD continuam presentes tanto na consciência colectiva musical dos angolanos como nas diversas rádios. Essa foi uma das razões pela qual pretendemos replicar o trabalho com uma versão instrumental”, afirma.
O amor do advogado pela música é tamanho que o levou, mais tarde, a criar o projecto Ensarte Musical, e ainda a contribuir para promover a música de Angola pelo mundo. Com anos de carreira, ao olhar para o mercado cultural nacional, Né Gonçalves é optimista:

“Hoje, aqui, faz-se de tudo. Faz-se muita música cada vez mais com muita qualidade. É possível fazer boas canções do ponto de vista dos poemas, das letras, da estética musical, qualidade dos arranjos, porque a música é isso mesmo, formada por essas diversas componentes. Essa qualidade constitui um grande desafio para quem não é profissional. Ou faço com qualidade ou não vale a pena fazer. Essa de alguma forma, é minha filosofia, minha linha de orientação”, arremata.

Fonte: Rede Angola